PNSC · Piauí
Paisagem monumental da Serra da Capivara
Arqueologia & Museologia UNIRIO · 2026

Serra da
Capivara.

Arqueologia e musealização de um caso exitoso — e de suas contradições.

UNIRIO · Museologia Integral
Arqueologia e Museologia
Profª Alejandra Saladino
Cândida Rodrigues & Clélio de Paula
Role para percorrer
Baixão da Pedra Furada em panorama
01 — Abertura

Primeiro, o lugar.

Parque nacional, caatinga, cânions e mais de mil sítios arqueológicos catalogados no semiárido do Piauí. Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO desde 1991. Antes dos nomes e das datas, a escala monumental do território.

Conjunto de pinturas rupestres
02 — Evidências

Não é só paisagem:
é documento.

No Boqueirão da Pedra Furada, datações por Carbono-14 recuam a presença humana para até 50.000 anos — muito além dos 13.000 anos do paradigma Clovis. Aqui a rocha é arquivo, e a datação virou disputa científica internacional.

03 — Niède e pesquisa
A vida que se confunde com a arqueologia do país

Niède Guidon

1959–1964A convite de Paulo Duarte, fundador do Instituto de Pré-História da USP, inicia na arqueologia estudando os sambaquis paulistas, ao lado de Luciana Pallestrini.
1963Conhece as pinturas do Piauí por fotografias no Museu Paulista; primeira visita à região.
1973Volta da França liderando a Missão Arqueológica Franco-Brasileira.
1979Criação oficial do Parque Nacional da Serra da Capivara (Decreto nº 83.483, de 5 de junho).
1986Criada a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), que passa a mediar pesquisa, conservação e desenvolvimento local.
1991UNESCO declara o parque Patrimônio Cultural da Humanidade.
1998Inauguração do Museu do Homem Americano (FUMDHAM).
2025Niède Guidon falece aos 92 anos, na Serra da Capivara.
Niède Guidon na primeira expedição em 1973
Niède Guidon em trabalho de campo, 1978
04 — Missão científica

Da Sorbonne ao Piauí

A Missão Arqueológica Franco-Brasileira, financiada pela Universidade de Sorbonne, insere a Serra da Capivara numa rede científica internacional. Mas a pesquisa acontece no chão do território piauiense — em São Raimundo Nonato, no Sítio do Meio, na escavação e na topografia de campo.

Limpeza e documentação de estrutura arqueológica
05 — Padronização

Do achado avulso
ao método.

Antes do método, a escavação no Brasil era “hobby de weekend” — técnicas predatórias que só caçavam o objeto. A Missão Franco-Brasileira impôs a decapagem por níveis naturais, de Leroi-Gourhan: cavar seguindo a estratigrafia do solo, registrando forma, tempo e espaço de cada peça.

06 — Protagonismo feminino

A arqueologia brasileira
é, em boa parte, delas.

  • Niède Guidon — articuladora entre ciência, política patrimonial e defesa do território.
  • Luciana Pallestrini — pioneira em técnicas de escavação, professora da USP.
  • Gabriela Martin — franco-espanhola, estudou a pré-história do Nordeste.
  • Marian Rodrigues — nascida na região, atual chefe do Parque e fundadora do Instituto Olho d'Água (2013).
  • Anne-Marie Pessis — diretora-presidente da FUMDHAM e parceira científica histórica.

O protagonismo não ficou na ciência. Nos anos 2000, Guidon demitiu os guardas homens e passou a contratar só mulheres para as guaritas. O emprego formal rompeu ciclos de violência doméstica e formou um matriarcado funcional na gestão do parque.

Marian Rodrigues e Niède Guidon
IPHAN e UNIVASF assinam protocolo de intenções
07 — Vitória institucional

Parque, IPHAN,
UNESCO, universidade.

A institucionalização ancora a continuidade: reconhecimento patrimonial, regras de conservação do IPHAN, chancela da UNESCO e cooperação com a universidade pública — incluindo o curso de arqueologia na própria região. O sítio deixa de ser pedreira de curiosidades e passa a espaço indissociável de suas relações ambientais e culturais.

Povoado do Zabelê
08 — A virada
Uma situação não tão exitosa

Zabelê, e a
festa da tristeza.

Notificados da expulsão definitiva em 1989, os maniçobeiros do Zabelê organizaram a “Festa da Tristeza”: reisado, quadrilha e a simulação do processamento da maniçoba, do fumo e do algodão. Não foi despedida — foi afirmação de que ali havia cultura viva, obliterada em nome de uma cultura pintada nas rochas há milênios.

Centro de Memórias dos Povos da Serra da Capivara
09 — Política pública

Patrimônio não se faz
contra a cultura viva.

Depois do Zabelê, preservar passa a exigir permanência, memória e participação — a “arqueologia sensível” de Helena Pinto Lima: humilde, desalienada, feita de escuta e afeto. A resposta local tem nome e autoria: em 2013, a arqueóloga Marian Rodrigues, nascida na região, fundou o Instituto Olho d'Água, cujo Centro de Memórias dos Povos da Serra da Capivara guarda a memória das famílias deslocadas.

Escavação arqueológica em área ampla
10 — Conceito crítico
Uma crônica “estratigrafia de abandonos” — camadas de descaso, preservação e reparação sobrepostas no tempo.

Lendo Maria Cristina Bruno (2018), a Serra é lida como laboratório de êxitos e contradições. Estratigrafia aqui é método arqueológico e metáfora: olhares estrangeiros, deslocamento dos olhares e, no século XXI, a urgência de olhar para os vestígios junto das comunidades que os cercam.

Projetos socioculturais da FUMDHAM
11 — Continuidade

Manter o território
vivo.

Núcleos de Apoio à Comunidade e escolas de tempo integral atenderam mais de mil crianças — com método construtivista, três refeições, banho e saúde. Cursos de apicultura e de guia de turismo substituíram a caça furtiva. A salvaguarda do acervo passou a depender da educação.

12 — Economia local

A cerâmica:
passado que gera renda.

A fábrica de cerâmica Serra da Capivara mostra o desdobramento concreto: o patrimônio não fica congelado no passado. Com auxílio técnico do ceramista japonês Soichi Yamada, artesãos locais reproduzem com precisão os grafismos rupestres em peças utilitárias — cerca de dez mil por mês, exportadas para Europa e Estados Unidos.

Fábrica de cerâmica Serra da Capivara
Museu do Homem Americano
13 — Musealização viva

Do achado à
experiência pública.

Quatro equipamentos traduzem pesquisa e memória em experiência: o Museu do Homem Americano (28 de julho de 1998, São Raimundo Nonato), sobre a evolução humana nas Américas; o Museu da Natureza (18 de dezembro de 2018), sobre clima e megafauna da Caatinga; o Museu Zabelê (MUZAB), comunitário, no reassentamento de Novo Zabelê; e o Centro de Memórias dos Povos da Serra da Capivara, do Instituto Olho d'Água, em Coronel José Dias. Só o Homem Americano e a Natureza somaram 28.331 visitantes entre janeiro e julho de 2025.

Centro de Memórias dos Povos
14 — Fechamento

O êxito só é pleno quando
aprende com o Zabelê.

A arqueologia da Serra da Capivara deixa de ser apenas descoberta e se torna manutenção de território, memória, renda, educação, protagonismo feminino e cultura viva. Um caso exitoso — desde que a preservação inclua quem habita a paisagem.

BRUNO, M. C. O. Museus de arqueologia no Brasil: uma estratigrafia de abandonos e de desafios. Ibram, 2018. · CAMPOS, L. C. S. Sítio Arqueológico. Dicionário IPHAN de Patrimônio Cultural, 2018. · ESPINELLI, K. Os Caminhos de Niède Guidon (podcast, 9 ep.). B9 / Serrapilheira, 2024. · LIMA, H. P. Patrimônio para quem? Por uma arqueologia sensível. Habitus, 2019. · SALADINO, A. et al. Reflexões sobre a prática arqueológica no Brasil do século XXI. Habitus, 2020.

UNIRIO · Museologia Integral · Cândida Rodrigues & Clélio de Paula · Junho de 2026