PNSC · Piauí
Paisagem monumental da Serra da Capivara
Arqueologia & Museologia UNIRIO · 2026

Serra da
Capivara.

Arqueologia e musealização de um caso exitoso — e de suas contradições.

UNIRIO · Museologia Integral
Arqueologia e Museologia
Profª Alejandra Saladino
Cândida Rodrigues & Clélio de Paula
Role para percorrer
Parque Nacional da Serra da Capivara · Thiago Campi / Wikimedia
Baixão da Pedra Furada em panorama
01 — Abertura

Primeiro, o lugar.

Parque nacional, caatinga, cânions e mais de mil sítios arqueológicos catalogados no semiárido do Piauí. Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO desde 1991. Antes dos nomes e das datas, a escala monumental do território.

FUMDHAM
Conjunto de pinturas rupestres
02 — Evidências

Não é só paisagem:
é documento.

Pinturas rupestres, abrigos sob rocha e o Boqueirão da Pedra Furada guardam algumas das datações mais antigas da presença humana nas Américas. Aqui a rocha é arquivo — e por isso a preservação deixa de ser estética e vira questão científica e pública.

Wikimedia Commons
03 — Niède e pesquisa
A vida que se confunde com a arqueologia do país

Niède Guidon

1959Inicia na arqueologia com os sambaquis paulistas, ao lado de Luciana Pallestrini.
1963Conhece as pinturas do Piauí por fotografias no Museu Paulista; primeira visita à região.
1973Volta da França liderando a Missão Arqueológica Franco-Brasileira.
1979Criação oficial do Parque Nacional da Serra da Capivara.
1991UNESCO declara o parque Patrimônio Cultural da Humanidade.
1998Inauguração do Museu do Homem Americano (FUMDHAM).
2025Niède Guidon falece aos 92 anos, na Serra da Capivara.
Niède Guidon na primeira expedição em 1973
Revista Pesquisa FAPESP · 1973
Niède Guidon em trabalho de campo, 1978
04 — Missão científica

Da Sorbonne ao Piauí

A Missão Arqueológica Franco-Brasileira, financiada pela Universidade de Sorbonne, insere a Serra da Capivara numa rede científica internacional. Mas a pesquisa acontece no chão do território piauiense — em São Raimundo Nonato, no Sítio do Meio, na escavação e na topografia de campo.

Revista Pesquisa FAPESP · 1978
Limpeza e documentação de estrutura arqueológica
05 — Padronização

Do achado avulso
ao método.

Antes da consolidação institucional, o vestígio podia ser tratado como coleta, curiosidade ou pedreira de extração. O ponto de virada é a passagem para método, registro e responsabilidade — a documentação sistemática que transforma curiosidade em ciência.

FUMDHAM
06 — Protagonismo feminino

A arqueologia brasileira
é, em boa parte, delas.

  • Niède Guidon — articuladora entre ciência, política patrimonial e defesa do território.
  • Luciana Pallestrini — pioneira em técnicas de escavação, professora da USP.
  • Gabriela Martin — franco-espanhola, estudou a pré-história do Nordeste.
  • Marian Rodrigues — atual chefe do Parque, nascida na comunidade local.
  • Anne-Marie Pessis — diretora-presidente da FUMDHAM e parceira científica histórica.
Marian Rodrigues e Niède Guidon
SAB · Governo do Piauí
IPHAN e UNIVASF assinam protocolo de intenções
07 — Vitória institucional

Parque, IPHAN,
UNESCO, universidade.

A institucionalização ancora a continuidade: reconhecimento patrimonial, regras de conservação do IPHAN, chancela da UNESCO e cooperação com a universidade pública — incluindo o curso de arqueologia na própria região. O sítio deixa de ser pedreira de curiosidades e passa a espaço indissociável de suas relações ambientais e culturais.

IPHAN
Povoado do Zabelê
08 — A virada
Uma situação não tão exitosa

Zabelê, e a
festa da tristeza.

A preservação teve custo social: a remoção compulsória da comunidade tradicional do Zabelê, para cumprir a antiga lei dos Parques de Proteção Integral — normas depois revistas para permitir a permanência de povos tradicionais. A festa da tristeza entra aqui como memória do trauma e perda territorial, não como folclore.

IPHAN / Divulgação
Centro de Memórias dos Povos da Serra da Capivara
09 — Política pública

Patrimônio não se faz
contra a cultura viva.

Depois do Zabelê, a política pública muda de paradigma: preservar passa a exigir permanência, memória local, justiça territorial e participação. O Centro de Memórias dos Povos da Serra da Capivara é a resposta contemporânea à tensão — a comunidade como parte da conservação, não obstáculo a ela.

Joaquim Neto / ICMBio
Escavação arqueológica em área ampla
10 — Conceito crítico
Uma crônica “estratigrafia de abandonos” — camadas de descaso, preservação e reparação sobrepostas no tempo.

Lendo Maria Cristina Bruno (2018), a Serra é lida como laboratório de êxitos e contradições. Estratigrafia aqui é método arqueológico e metáfora: olhares estrangeiros, deslocamento dos olhares e, no século XXI, a urgência de olhar para os vestígios junto das comunidades que os cercam.

FUMDHAM · Bruno, 2018
Projetos socioculturais da FUMDHAM
11 — Continuidade

Manter o território
vivo.

Parcerias, manutenção, turismo, educação e trabalho local sustentam o projeto no cotidiano. O patrimônio arqueológico vira agente de transformação social numa região de extrema vulnerabilidade — gerando renda, técnica e pertencimento.

FUMDHAM
12 — Economia local

A cerâmica:
passado que gera renda.

A fábrica de cerâmica Serra da Capivara mostra o desdobramento concreto: o patrimônio não fica congelado no passado. Ele produz trabalho, técnica, identidade visual e renda — milhares de peças por mês, traduzindo a arte rupestre em economia viva para Coronel José Dias.

Fábrica de cerâmica Serra da Capivara
Francisco Gilásio · Gov. do Piauí
Museu do Homem Americano
13 — Musealização viva

Do achado à
experiência pública.

Museu do Homem Americano, Museu da Natureza e MUZAB transformam pesquisa, memória e território em narrativa pública — ligando objeto, mediação e memória comunitária. Mais de 28 mil visitantes em 2025 atravessaram esses espaços.

Francisco Gilásio · Gov. do Piauí
Centro de Memórias dos Povos
14 — Fechamento

O êxito só é pleno quando
aprende com o Zabelê.

A arqueologia da Serra da Capivara deixa de ser apenas descoberta e se torna manutenção de território, memória, renda, educação, protagonismo feminino e cultura viva. Um caso exitoso — desde que a preservação inclua quem habita a paisagem.

BRUNO, M. C. O. Museus de arqueologia no Brasil: uma estratigrafia de abandonos e de desafios. Ibram, 2018. · CAMPOS, L. C. S. Sítio Arqueológico. Dicionário IPHAN de Patrimônio Cultural, 2018. · ESPINELLI, K. Os Caminhos de Niède Guidon (podcast, 9 ep.). B9 / Serrapilheira, 2024. · SALADINO, A. et al. Reflexões sobre a prática arqueológica no Brasil do século XXI. Habitus, 2020.

UNIRIO · Museologia Integral · Cândida Rodrigues & Clélio de Paula · Junho de 2026
Joaquim Neto / ICMBio