
Serra da
Capivara.
Arqueologia e musealização de um caso exitoso — e de suas contradições.
Arqueologia e Museologia
Profª Alejandra Saladino
Cândida Rodrigues & Clélio de Paula

Primeiro, o lugar.
Parque nacional, caatinga, cânions e mais de mil sítios arqueológicos catalogados no semiárido do Piauí. Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO desde 1991. Antes dos nomes e das datas, a escala monumental do território.



Não é só paisagem:
é documento.
Pinturas rupestres, abrigos sob rocha e o Boqueirão da Pedra Furada guardam algumas das datações mais antigas da presença humana nas Américas. Aqui a rocha é arquivo — e por isso a preservação deixa de ser estética e vira questão científica e pública.



Niède Guidon


Da Sorbonne ao Piauí
A Missão Arqueológica Franco-Brasileira, financiada pela Universidade de Sorbonne, insere a Serra da Capivara numa rede científica internacional. Mas a pesquisa acontece no chão do território piauiense — em São Raimundo Nonato, no Sítio do Meio, na escavação e na topografia de campo.



Do achado avulso
ao método.
Antes da consolidação institucional, o vestígio podia ser tratado como coleta, curiosidade ou pedreira de extração. O ponto de virada é a passagem para método, registro e responsabilidade — a documentação sistemática que transforma curiosidade em ciência.


A arqueologia brasileira
é, em boa parte, delas.
- Niède Guidon — articuladora entre ciência, política patrimonial e defesa do território.
- Luciana Pallestrini — pioneira em técnicas de escavação, professora da USP.
- Gabriela Martin — franco-espanhola, estudou a pré-história do Nordeste.
- Marian Rodrigues — atual chefe do Parque, nascida na comunidade local.
- Anne-Marie Pessis — diretora-presidente da FUMDHAM e parceira científica histórica.


Parque, IPHAN,
UNESCO, universidade.
A institucionalização ancora a continuidade: reconhecimento patrimonial, regras de conservação do IPHAN, chancela da UNESCO e cooperação com a universidade pública — incluindo o curso de arqueologia na própria região. O sítio deixa de ser pedreira de curiosidades e passa a espaço indissociável de suas relações ambientais e culturais.



Zabelê, e a
festa da tristeza.
A preservação teve custo social: a remoção compulsória da comunidade tradicional do Zabelê, para cumprir a antiga lei dos Parques de Proteção Integral — normas depois revistas para permitir a permanência de povos tradicionais. A festa da tristeza entra aqui como memória do trauma e perda territorial, não como folclore.




Patrimônio não se faz
contra a cultura viva.
Depois do Zabelê, a política pública muda de paradigma: preservar passa a exigir permanência, memória local, justiça territorial e participação. O Centro de Memórias dos Povos da Serra da Capivara é a resposta contemporânea à tensão — a comunidade como parte da conservação, não obstáculo a ela.



Uma crônica “estratigrafia de abandonos” — camadas de descaso, preservação e reparação sobrepostas no tempo.
Lendo Maria Cristina Bruno (2018), a Serra é lida como laboratório de êxitos e contradições. Estratigrafia aqui é método arqueológico e metáfora: olhares estrangeiros, deslocamento dos olhares e, no século XXI, a urgência de olhar para os vestígios junto das comunidades que os cercam.

Manter o território
vivo.
Parcerias, manutenção, turismo, educação e trabalho local sustentam o projeto no cotidiano. O patrimônio arqueológico vira agente de transformação social numa região de extrema vulnerabilidade — gerando renda, técnica e pertencimento.


A cerâmica:
passado que gera renda.
A fábrica de cerâmica Serra da Capivara mostra o desdobramento concreto: o patrimônio não fica congelado no passado. Ele produz trabalho, técnica, identidade visual e renda — milhares de peças por mês, traduzindo a arte rupestre em economia viva para Coronel José Dias.




Do achado à
experiência pública.
Museu do Homem Americano, Museu da Natureza e MUZAB transformam pesquisa, memória e território em narrativa pública — ligando objeto, mediação e memória comunitária. Mais de 28 mil visitantes em 2025 atravessaram esses espaços.




O êxito só é pleno quando
aprende com o Zabelê.
A arqueologia da Serra da Capivara deixa de ser apenas descoberta e se torna manutenção de território, memória, renda, educação, protagonismo feminino e cultura viva. Um caso exitoso — desde que a preservação inclua quem habita a paisagem.
BRUNO, M. C. O. Museus de arqueologia no Brasil: uma estratigrafia de abandonos e de desafios. Ibram, 2018. · CAMPOS, L. C. S. Sítio Arqueológico. Dicionário IPHAN de Patrimônio Cultural, 2018. · ESPINELLI, K. Os Caminhos de Niède Guidon (podcast, 9 ep.). B9 / Serrapilheira, 2024. · SALADINO, A. et al. Reflexões sobre a prática arqueológica no Brasil do século XXI. Habitus, 2020.
UNIRIO · Museologia Integral · Cândida Rodrigues & Clélio de Paula · Junho de 2026